Ryan Lochte e as mentirinhas do dia a dia

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foram incríveis. Ninguém acreditava, todo mundo ia contra, mas vamos combinar: foram sensacionais. Porém, dentre os feitos de grandes atletas de todo o mundo, mentira virou notícia internacional. Sim, uma mentira. O medalhista olímpico Ryan Lochte, que segundo ele próprio, fez um relato “exagerado” de um suposto assalto e que dias depois foi desmentido por imagens das câmeras de segurança na entrada da Vila Olímpica.

Alguns dias após o ocorrido e ainda quando a notícia repercutia na imprensa e o atleta ainda sentia os efeitos do seu ato, tive mais uma conversa corriqueira com meu filho sobre o seu dia na escola. A pergunta clássica ,feita por 10 entre 10 mães e, sobretudo, por uma mãe nutricionista como eu.

– Jantou na escola meu filho?

Apesar da escola ter uma aplicativo que demonstra as atividades dos alunos (inclusive a alimentação), eu prefiro sempre conversar, mesmo sendo adepta ao uso das tecnologias. Ele imediatamente respondeu:

– Sim mãe!

Desconfiei da resposta rápida e certeira e também daquela carinha, que tinha os olhos voltados para o lado esquerdo (um dos sinais expressos pela linguagem corporal de que a pessoa está mentindo). Desconfiei.

– Mesmo?

– Claro que sim mãe!

– Vou olhar no aplicativo da escola, tudo bem?

Como se eu tivesse dito a um criminoso que veria  as imagens das cameras de segurança, arregalou os olhos e disparou:

-Tá bom mãe, eu NÃO jantei.

Ele tinha mentido. Assim como Ryan Lochte ,”exagerou” no seu depoimento. De imediato o questionei porque havia mentido. Ele não soube responder.

Foi aí que me dei conta que mentimos para não decepcionar os outros. As primeiras mentiras tem este objetivo. Ele não queria me desapontar. Sabia que eu ficaria preocupada, chateada se ele confessasse o seu jejum. Mas ao contrário do que a imprensa fez com o nadador, não o condenei. Respirei fundo e ao invés de xingá-lo ou dar uma lição de moral, me abaixei, olhei bem para ele e disse.

-Eu não vou ficar “braba” se tu não tiver jantado. Eu só quero saber, só isso.

Ele, surpreso, disse:

-Eu achei que tu ia ficar muito “braba” comigo.

Abracei ele .

-Não, não vou. Vamos jantar agora?

-Sim mãe! Eu coloco a mesa.

Provavelmente esta não será a primeira nem a última mentira. Mas com ela, eu aprendi duas coisas: a tecnologia das câmeras e dos aplicativos é útil para desmascarar mentirosos; mas apenas cultivando relações de confiança é que podemos criar sujeitos éticos e livres.

Espero que Ryan Lochte tenha aprendido também.

 

 

 

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