Pra que tanta pressa?

São sete horas da manhã. Só mais cinco minutos. Passaram-se 10 minutos. Estou atrasada!

Banho, roupa, maquiagem e café da manhã. Pronto, é só pegar a bolsa e sair para trabalhar. Mas não. Tenho um filho. Faz a mamadeira. Separa a roupa, confere a agenda. Tinha que ter feito um unicórnio de sucata, pra levar hoje. Xiii…não fizemos! Separa a roupa, arruma a mochila. Depois de chamar 18 vezes, faz xixi, escova os dentes e o cabelo, passa creme no rosto. Estamos saindo, ufa! Não vou me atrasar para a primeira reunião do dia. Volta. Esquecemos o remédio da alergia. Chego no carro. Choro. O boneco que achávamos que estava no carro não está. Acalma. Pronto, vamos. Chego na escola. As crianças não estão na sala, estão na brinquedoteca. Consigo achar todo mundo. Beijo de tchau, até mais! Engarrafamento. Estacionamento lotado. Fila no elevador. Cheguei! Atrasada em mais uma reunião.

Para quem acha que a vida é corrida, com muitos compromissos, espere até ter filhos. Não, isso não é uma reclamação. Acredito, inclusive que os filhos vêm para que a gente preste atenção nas pequenas coisas da vida. Mas é preciso que nós, pais, estejamos preparados para enxergar isso, pois, caso contrário, o cronômetro implacável da maratona diária faz com que a gente nunca atinja o merecido pódio. Nos tornamos executores de tarefas que atendem as necessidades básicas da criança e assim ela se cria, sendo alimentada, higienizada, medicada e educada. Pronto, cumprimos nossa tarefa, assim como quem cumpre itens num check list obrigatórios de uma auditoria qualquer.

Foi num domingo chuvoso que me dei conta que a mãe maratonista havia entrado no mode on. Estavámos nos arrumando para almoçar fora e depois pegar um cineminha. Cada um se arrumando no seu quarto e, como qualquer outra criança de 5 anos, Luca Toni ia e voltava na sala, brincava, cantava, dançava enquanto demoradamente, se arrumava. Eu, tentando estimular a autonomia para a básica tarefa de saber colocar a própria roupa, simulava que aquilo era uma competição. A estratégia não deu muito certo e mesmo depois de muitas orientações e eu já pronta para sair, ele ainda não havia terminado de se arrumar. Já meio irritada, peguei a camiseta que estava jogada no chão e colocando nele, esbravejei:

-Vamos logo! Coloca esta camiseta de uma vez guri!

Foi quando ouvi a frase que me trouxe para o momento presente:

-Pra que tanta pressa mãe?

Parei na hora. Não respondi nada, abracei-o, disse que o amava. Fomos para o nosso “compromisso”. No caminho, enquanto aquela frase ainda ecoava na minha mente, lembrei de dois textos que havia lido e que me trouxeram elementos para uma reflexão sobre a minha pressa. Um deles falava sobre o movimento Slow Professor, que segue a tendência da desaceleração, da valorização do momento, do tempo ocioso para que possamos compreender o real valor de cada ação, estimulando a criatividade e a conexão entre as pessoas, assim como o Slow Food e o Slow Roll. Uma amiga, depois de ler o mesmo texto, citou o termo Slow Parenting, que se aplica muito bem no contexto em que refletia. O outro texto, tinha como título “Learning for Life: New Skills for New Jobs” falava sobre o aprender para a vida, sobre as novas competências para um mundo em transformação. A série de questionamentos sobre educação que o texto trazia me fez novamente refletir sobre a minha pressa para um passeio familiar. Numa tradução livre, o texto dizia assim:

Não podemos ensinar as pessoas a serem criativas, dando-lhes tarefas padronizadas. Não podemos ensinar as pessoas a serem colaborativas, colocando-as em concorrência umas contra as outras. Não podemos ensinar as pessoas a serem aprendizes ao longo da vida privando-as de auto-conhecimento e de coragem para aprender, e ainda,  culpando-as pelos seus erros. Não podemos ensinar as pessoas a serem empáticas e  emocionalmente inteligentes, removendo a emoção das ações. Não podemos ensinar as pessoas a estarem atentas se não estivermos atentos.”

Dizem que as crianças crescem rápido e que a vida passa rápido demais. Acho que isso acontece para quem tem pressa. Pressa de saber o que vem depois. Pressa para ver a tarefa cumprida. Pressa para resolver o problema na hora.

A vida pede calma. Mãe maratonista: mode off.

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