Fogo sem ar se apaga

 

Tarefas domésticas são chatas. Peço desculpas pela sinceridade, mas não tem outra coisa que defina a rotina diária de atividades improdutivas e repetitivas que uma casa gera a cada minuto. É louça que se acumula, roupa que suja, pó que se cria. E não adianta. Para que a casa fique habitável e você continue tendo condições de encontrar suas coisas, as tarefas precisam ser feitas. Mas tudo pode ficar pior. Depois que temos filhos, o volume de tarefas aumenta, pois, afinal de contas, tem outro ser humano que come, dorme, veste e ainda faz uma bagunça danada por onde passa, modificando completamente aquela decoração minimalista projetada para o lar, antes habitado apenas por um casal.

Passados quase 6 anos desde o nascimento de Luca Toni, já me acostumei com a casa decorada por Legos, Hot Wheels e, mais recentemente, por cartinhas Pokémon. Mas não basta se acostumar com a nova decoração. Incluir a criança na rotina doméstica e ensiná-la a ser responsável por pequenas atividades que contribuam para a organização da casa apresenta-se como uma alternativa desafiadora.  Mas como ensinar algo que eu também acho chato fazer? Não tenho uma resposta, mas tenho observado diferentes práticas por aí afora.

Talvez a mais comum delas é ficar “apurrinhando”a vida da criança para que ela coloque cada coisa que ela tira do lugar, de volta ao lugar original. Caso a operação guarda-guarda não ocorra, a criança recebe dupla punição: é privada de alguma regalia e depois é submetida à pior das piores punições. A de ter todos os seus brinquedos guardados por um adulto, que aniquila reinos, cidades e campos de batalha sem dó nem piedade. É o pior fim para qualquer brincadeira. Sem liberdade para a “bagunça”, a criança, desde cedo, aprende a reprimir sua imaginação e autonomia, que são cerceadas pelo olhos fiscalizadores de adultos avessos ao caos. Com tudo guardado, dizemos que a brincadeira continua amanhã. Mas como continuar, se tudo aquilo que estava caoticamente organizado não está mais no seu devido lugar?  A ideia de manter intocáveis as criações, construções e projetos das crianças não é nova, e é defendida pelas escolas de educação infantil Reggio Emilia, na Itália, onde o princípio pedagógico básico é que a criança tenha algum controle sobre a direção de sua aprendizagem.

Tentando encontrar a melhor forma de ensinar um hábito que ficará para a vida toda, vivo momentos que eventualmente me fazem acreditar que eu possa estar indo na direção certa. Há algumas semanas, enquanto eu fazia o jantar, Luca Toni estava inquieto, brincando e espalhando brinquedos pela sala toda.

Foi então que eu o convidei para colocar a mesa para o jantar, de um jeito bem especial, do jeito que ele achasse mais bonito. Como num passe de mágica, ele parou o que estava fazendo e aceitou o desafio, partindo para a sua tarefa: a de arrumar a mesa mais especial de todas, da maneira que ele quisesse. Pegou os pratos, os talheres, os copos. Organizou cuidadosamente os guardanapos. Colocou os protetores de panelas. Mas ele não estava satisfeito. Queria algo realmente especial. Foi até a sala e pegou algumas velas e pediu que eu as acendesse. Ajudei-o com o fogo. Pronto! Um jantar à luz de velas em plena terça-feira acabara de ser organizado. Sentamos à mesa. Enquanto eu comia, ainda cheia de orgulho pela iniciativa do pequeno cavalheiro, fui interrompida:

-Mãe, quer ver o que acontece com fogo se eu colocar um copo em cima da vela?

O questionamento me causou surpresa para uma criança de 5 anos. Se bem me lembro, fiz este experimento quando já estava no colégio, lá pela 4a ou 5a série. Perguntei se ele sabia o que aconteceria e de onde ele tinha tirado aquela ideia.

– Eu sei o que vai acontecer. A vela vai apagar. Eu vi isso no YouTube.

Mentalmente, pensei (What? No YouTube?). Sim, ele viu o experimento em um dos vários vídeos que ele já assistiu na plataforma online, enquanto navega na escolha de conteúdos que mais lhe interessam. Na sequencia, ele colocou um copo virado em cima da vela acessa, que segundos após, apagou.

-Viu só mãe, eu não disse?

É, ele tinha razão. Seguindo o nosso raciocínio investigativo, perguntei pra ele se ele sabia porque a vela apagava. Sem saber a explicação para esta pergunta, conversamos sobre ela durante o resto do jantar.

 

Terminado o jantar, fiquei pensando sobre o que havia acontecido. Primeiro, a alegria e empenho dele em fazer uma tarefa doméstica, mas que naquele momento foi realizada com significado e autonomia, sem ninguém dando sermão sobre a importância de ajudar em casa ou controlando se os talheres estavam alinhados. Depois, o experimento com a vela, que ele aprendeu sozinho, interagindo num ambiente virtual, guiado por sua curiosidade e, mais uma vez, de forma autônoma. Sem pressão e rigidez. Com flexibilidade e espaço. Mas sempre com acompanhamento, já que, em ambas as situações, a “presença pedagógica”, que guia, orienta, encoraja e esclarece estava lá. Espiando, de longe, mas presente.

Realmente, parece que para manter a chama do aprendizado acesa, não podemos abafá-la. Pois fogo sem ar, se apaga.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s