Soro, seringa e coragem!

Hoje o Be Cool Boy vai ser diferente. Não vou falar de sobre inclusão, erros e acertos na educação dos filhos ou sobre os malabarismos na vida de uma mãe. Vou falar de uma coisa prática, que tem a ver com a saúde dos nossos pequenos e num momento bastante oportuno,  já que, com a chegada dos ares primaveris, a temporada de espirros e narinas cheias de caca se inicia.

E vamos combinar que nariz de criança que está sempre “ranhento”dá uma agonia.  Ver aqueles pequenos orifícios cheios de secreção, atrapalhando a respiração da criaturinha, que é obrigada a ficar respirando pela boca é muito desconfortável. E o pior de tudo é que as crianças demoram a aprender a assoar o nariz, por mais incentivo que recebam. A gente até tenta explicar: “Assopra”! “Faz xuxo”! “Faz assim oh! (e aí a gente faz uma careta, tentando demonstrar como se livrar do incômodo). Tudo em vão. Quanto mais a gente orienta, menos eles entendem o que devem fazer.

Minha experiência em limpar o nariz do Luca Toni começou desde muito cedo. Com alguns dias de vida, ele era capaz de produzir “tatus” gigantescos. Eu ainda não sabia que uma das características da displasia ectodérmica anidrótica é a produção de muco mais espesso, por conta do menor número de glândulas nas mucosas, que ficam ressecadas e acabam acumulando uma quantidade enorme de secreção ao final do dia. Caso não higienizada adequadamente, a via aérea fica tão cheia de secreção que acaba se obstruindo os ductos auditivos. Isso favorece o aparecimento das otites, que ao longo destes quase 6 anos de vida de Luca Toni renderam 4 cirurgias para colocação de drenos e algumas dezenas de tratamento com antibióticos.

Assim, desde muito cedo, Luca Toni recebeu atenção especial na limpeza do seu pequeno nariz (coisa que geralmente as crianças odeiam e esperneiam para limpar). A orientação (dada pela otorrino que o acompanha desde bebê) sempre foi muito simples: SORO FISIOLÓGICO e UMA SERINGA de 5 ml. SÓ ISSO. Sem sprays de jato contínuo que custam 50 Reais. Sem fórmulas mágicas, com água do mar. Nada disso. Era só soro, seringa. Mas ela não me disse que eu precisaria de outro elemento: a CORAGEM. Porque era EU tinha que limpar o nariz dele com jatos deste soro. E se ele se afogasse? E se o soro fosse para o lugar errado? E o desconforto de sentir um jato entrando pelo nariz? A médica, sempre muito paciente, explicava que se eu o mantivesse bem sentado, não havia perigo algum. Só me restava acreditar, respirar fundo e fazer o procedimento.

Apesar da insegurança inicial, já nas primeiras lavadas f eu percebi que a técnica era incrivelmente eficaz, pois o soro injetado em uma narina empurrava a secreção da outra narina para fora e vice-versa. Dava um alívio, só em ver tudo aquilo estava saindo do narizinho dele. Mas com o tempo, na medida em que ele crescia , ficava mais difícil fazer, pois a resistência foi aumentando. Então, além de coragem eu precisava usar a força e aquilo me incomodava muito.

Foi aí que eu tive que iniciar com ele um processo de educação para o auto-cuidado. Sim, com uma criança pequena, é possível ensinar procedimentos importantes para que eles aprendam a se cuidar e entendam que aquilo que fazem pode prevenir doenças e proporcionar alívio de sintomas desagradáveis. Não precisamos segurá-los à força para limpar o nariz ou tomar o remédio. Temos que ensinar a importância deste cuidado e permitir que eles mesmos o façam, sempre com supervisão.

Assim, desde os 3 anos, Luca Toni literalmente já cuida do seu próprio nariz, pois desenvolveu autonomia para higienizá-lo e isto o estimulou a querer fazer sozinho outras atividades, como tomar banho, passar creme no corpo e no rosto, pentear o cabelo, vestir-se.Sempre penso em quantas mães não são orientadas a fazer este procedimento simples e barato, que em teoria exige apenas dois itens (o soro e a seringa). Mas só agora percebo que seguir esta orientação não é tão simples assim.

Promover  a autonomia para as pequenas coisas, para o auto-cuidado é um ato de coragem. CORAGEM para confiar, CORAGEM para permitir o erro e principalmente, CORAGEM para deixar a criança crescer.

Luca Toni, 5 anos, em pleno auto-cuidado: fazendo sua higiene diária

 

 

 

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