Longe dos olhos, perto do coração

Os Salões de Iniciação Científica são ótimas oportunidades para se conhecer as pesquisas de uma Universidade. Nesta semana, tive a oportunidade de participar de algumas bancas num evento desses. Duas manhãs inteiras conhecendo e avaliando pesquisas que são desenvolvidas com o intuito de melhorar a vida das pessoas. Produção de conhecimento à flor da pele. Uma belezura!

Todos os trabalhos apresentados eram realmente muito bons. Porém, dentre todos, um, em especial, chamou minha atenção. Uma jovem estudante do curso de Biologia apresentou uma pesquisa que avaliava os impactos da separação materna na memória e aprendizagem de camundongos. Quando li o título do trabalho e depois, ao longo da excelente apresentação da aprendiz de cientista, um aperto no peito foi tomando conta de mim. “Separação materna?! – pensei. Que vida difícil devem ter estes jovens camundongos, que desde tão tenra idade já experimentam o trauma de serem separados da mãe. Mas continuei firme, atenta aos resultados da investigação e à minha tarefa avaliativa. Trabalhos apresentados, palmas da platéia, arguição da banca, fim da sessão. Minha missão para com a comunidade científica havia sido cumprida.

Após o término das apresentações, enquanto me deslocava até outro prédio, continuei pesando no dito trabalho. A “separação materna” continuava martelando na minha cabeça, porque no dia anterior à banca, uma situação semelhante à que aconteceu com os pobres roedores, acontecera comigo. Eu explico. Em função de uma agenda lotada de compromissos, pedi para o meu sogro buscar meu filho na escola. Ele, imediatamente se prontificou e ficou muito feliz em poder ajudar. O neto, obviamente, também adorou e, ao invés de ir para casa, quis ir para a casa dos avós e por lá ficou até quase 10 horas da noite. Chegando em casa, veio direto me abraçar e, a partir deste momento, os avós passaram para um segundo plano, pois o “grude” tinha entrado em ação. Foi quando, discretamente, o avô fez o comentário: “Lá em casa ele era outro! Conversou, jantou, brincou. Nem parecia a mesma criança. É incrível como ele é diferente na frente da mãe! “

Lembrando deste comentário e ainda refletindo sobre os resultados da pesquisa com os camundongos desamparados, eu caminhava pelo campus, pensando: Será que a separação materna, no meu caso, surtiu efeitos positivos sobre o comportamento da criança? Seria eu um fator tóxico que transforma o filho num ser antissocial? Por que, afinal de contas, ele se comporta de forma tão educada e responsável quando está longe dos meus olhos?

Sim, todos nós sabemos que crianças adoram chamar atenção. Nossos filhos mudam o comportamento quando estão perto da gente, assim como nós muitas vezes já mudamos o nosso jeito de ser para  impressionar alguém. Mas eu também penso que, quando os filhos estão longe de nossos olhos, é que surge a oportunidade para que eles demonstrem aos outros o que há de melhor neles, tudo aquilo que ensinamos, de forma espontânea, sincera e sem cobranças. É o momento de colocar em prática o “não faz isso guri”! De lembrar que “tem que cumprimentar as pessoas”! De acreditar que aquelas 483 vezes que você pediu para que ele limpasse a boca com um guardanapo, valessem a pena. Só que, apenas lembrar do que é certo ou errado quando estão longe da gente, não basta. Neste momento é importante colocar em ação o ensinamento mais precioso de todos: o de SER ser humano. Isso não se ensina com regras, com castigos ou com palavras de ordem. Isso se ensina com o “eu te amo” sem motivo, a qualquer hora do dia. Com o “isso, tu vais conseguir”, quando surge um obstáculo. Com o colo carinhoso quando o choro aparece. Com o acolhimento dos medos e das dúvidas.

Ainda caminhando e processando o meu devaneio científico/materno e quase chegando na minha sala, levanto hipótese de que o efeito da “separação materna” em humanos é benéfico, ao contrário do que foi encontrado na pesquisa com os camundongos. Assim, chego à conclusão de que o fator determinante para a “mudança de comportamento” da criança que fica longe da mãe, não é a separação em si, mas sim, a qualidade da relação durante o tempo em que estão juntos, que se expressa através da auto-confiança, autenticidade e autonomia.

Já em frente ao meu computador, tenho um último pensamento sobre o tema: huuummmm…seria interessante investigar se o “grude” e o “dengo” de mãe repercutiriam no comportamento de longo prazo dos filhos, principalmente em momentos em que estamos longe deles. Seria uma pesquisa difícil de fazer, já que não existem protocolos científicos definidos para isso. Mas um bom título eu já teria: “Longe dos olhos e perto do coração: o impacto do amor de mãe em todos os momentos da vida de uma criança”.

Ah, deixa pra lá…Acho que este objeto de estudo já não precisa mais de nenhum tipo de comprovação. É melhor mesmo continuar estudando os camundongos.

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