As neofobias nossas de cada dia

Preciso confessar uma coisa: meu filho é chato pra comer. Sim, mesmo sendo uma mãe nutricionista (o que não significa que tenho poderes mágicos sobre a alimentação das pessoas que me cercam) eu “sofro” com isso, assim como centenas de outras mães mundo afora também “sofrem”. Diariamente tenho que lidar com um dos comportamentos alimentares mais recorrentes em crianças na idade pré-escolar – a neofobia – que é definida pelo “medo do novo”.  Vamos combinar que é bastante comum a gente ver crianças torcendo o nariz para qualquer coisa diferente que esteja no prato. E se “a coisa” tiver textura e formato diferentes e ainda por cima for verde, é certo que vem reclamação. De certa forma, a neofobia alimentar é um mecanismo de proteção que já vem “instalado” em nosso cérebro, para evitar que sejamos contaminados ou envenenados. Não é à toa que fazemos careta quando comemos alguma coisa amarga. As substâncias venenosas na natureza geralmente têm este sabor.

No caso do Luca Toni, a neofobia típica da faixa etária é intensificada por suas peculiaridades da cavidade oral. Em função da Displasia Ectodérmica, com 6 anos ele possui apenas 2 dentinhos, frontais, com um formato conóide. São dois dentes que o orgulham e o empoderam (ele diz que são dentes de Tiranossauro Rex) e que de jeito nenhum ele quer mudar o formato. Por outro lado, este fato impôs à ele maiores cuidados em relação à consistência da dieta e aos riscos de afogamento com grãos, farelos e pedaços maiores de alimentos.

Mas, de vez em quando, ele deixa a neofobia de lado e tem súbitos momentos de “vou experimentar coisas novas”, como se fossem resoluções de ano novo, que nós, adultos, costumamos fazer, listando promessas pouco factíveis que serão executadas num futuro próximo. Dia desses foi assim. Fomos ao mercado juntos. Durante as compras ele foi tomado por uma vontade enorme de experimentar coisas novas, com sabores, texturas, cores que ele nunca havia provado antes. Me pediu para comprar cereais. Ele queria comer cereais no café da manhã. Pediu para comprar pão. Ele comeria sanduíches no lanche da tarde. Pediu para comprar leite com achocolatado. Ele levaria para a escola. Deixei ele colocar no carrinho as coisas que ele queria comprar (mesmo sabendo que algumas delas não era as opções mais saudáveis). Passamos no caixa e fomos para casa. Ele, feliz da vida com suas novas escolhas.

Chegando em casa, de imediato quis comer o cereal. E tinha que ser com leite. Servi como havia pedido. Ele olhou para o prato de cereal. Encheu a colher. Olhou para mim. Olhou para a colher. E de novo para mim. E para colher, mais uma vez. Respirou fundo. Levou a colher até a boca, ainda sem encostá-la da boca. Largou a colher. Me olhou e disse: mãe, acho que eu não vou querer. Neste momento, o pensamento de qualquer pessoa seria do tipo “Eu não acredito que eu comprei isso e ele não vai comer” (e foi exatamente o que eu pensei), seguido da reação de xingar e esbravejar com a criança (reação que me contive para não ter). Respirei fundo, sentei ao lado dele e perguntei porque ele não quis experimentar. “Acho que não vou gostar” – disse ele. “É um pouco duro eu posso me afogar”. “Tudo bem” – eu disse. “Tentamos numa próxima vez”.

Porém, ali, sentada ao lado dele, por milésimos de segundos, fiz uma reflexão sobre como eu reagiria a uma situação semelhante, num claro exercício de empatia. Pensei em cada um dos momentos que ele viveu, no supermercado, em frente ao prato de cereais, no momento da desistência. Me imaginei ficando empolgada com a possibilidade de algo novo, mas também com a sensação de medo, de desconforto e até mesmo de risco quando a novidade se aproxima e se torna real. E aí percebi que para dar o passo decisivo em direção ao novo, precisamos nos desapegar de toda e qualquer experiência prévia em relação à ação atual. O novo é um passo no escuro. É um salto no vácuo.  A gente não sabe o que vai acontecer, qual a sensação que teremos, até ela acontecer.

Sei que ainda tenho muito a trabalhar com Luca Toni. A jornada que ele já teve até aqui e o caminho que ainda terá em relação às descobertas de novos sabores e sensações, que envolvem sua oralidade está apenas começando. Ainda há muito o que experimentar. Ainda há muito o que aprender. Serão muitos alimentos negados e tantos outros aceitos. Serão muitas visitas ao dentista, para construir um sorriso (que na minha opinião já é lindo), que o ajude a ter novas experiências alimentares com outras texturas. Eu não tenho pressa, mas sim a preocupação em deixá-lo confortável, estimulando-o a sempre tentar o novo, de novo.

Crianças têm neofobia em relação à alimentação. É um comportamento típico, que desaparece na medida em que a criança cresce e que se bem manejado não impacta na qualidade da alimentação. Mas quando a neofobia vai além e se instala em outros aspectos da nossa vida, a coisa complica. Tem gente que passa a vida inteira com medo do novo. Com fobia de experimentar novas sensações, de tomar decisões que as levam para territórios desconhecidos e privando-se da oportunidade de ganhar a eternidade em cada momento.

Então, ao se deparar com o sentimento neofóbico em suas ações cotidianas, lembre-se de uma frase clichê do Facebook: qual foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s