Crianças hipotéticas

No ultimo feriadão Luca Toni acordou animado. Durante a semana, a expectativa com o início da folga prolongada era grande, pois planejávamos ir à praia. A empolgação não era por causa da viagem em si, mas sim, porque para ele, praia é sinônimo de BRINCAR. Mas não é brincar com qualquer um. É brincar com os “amigos da praia”. A cada temporada, feriado ou fim de semana que passamos lá, Luca Toni faz novos amigos e até já desenvolveu uma estratégia para isso.  Chega como quem não quer nada na quadra de areia, que fica no centro do condomínio; observa de longe as crianças que já estão brincando; troca uma ou duas palavras com alguém que lhe dirige o olhar (muitas vezes por ficarem curiosos a respeito dos dentinhos pontudos dele); ele dá uma explicação qualquer sobre os dentes (de forma muito bem resolvida) e corre para casa, gritando: “Mãe, posso levar um brinquedo para a quadra?”. Pronto, Luca Toni tem mais um amigo na praia e eu, um filho com um único objetivo: não parar de brincar até voltar para Porto Alegre.

Isso significa que na praia, tenho mais tempo para ler, para tomar um chimarrão ao sol, para caminhar e também para observar e refletir sobre as coisas da vida. E foi num momento destes que a inspiração para este post apareceu. Estava eu deitada na rede, curtindo o ócio, quando me peguei observando Luca Toni e seu amigo. Eles já estavam há horas brincando e o nível de envolvimento com a brincadeira não havia diminuído desde que ela iniciara. “Nossa, como eles ficam entretidos, por tanto tempo” – pensei.

Encantada com o que se desenrolava e buscando inspiração para futuras brincadeiras, um diálogo da dupla me chamou atenção.

“Cara, aqui não tem espelho nenhum!” – dizia o amigo da praia.

“Mas é um espelho HIPOTÉTICO, tu não sabe disso?” –  respondeu Luca Toni.

Na hora achei graça e até pedi para ele repetir. Perguntei se ele sabia o significado da palavra.

“Mas é claro! Significa que o espelho não existe, a gente só faz de conta que ele está aqui.” – ele respondeu.

“Puxa! Que explicação!”- pensei. Realmente, brincar é o máximo da expressão da criatividade e uma excelente forma de desenvolver habilidades de comunicação, de gerenciamento de conflitos e de resolução de problemas. Eu acredito muito no poder do brincar, tanto que acabei transformando o meu antigo escritório numa “sala de criatividade” para o Luca Toni. Mas, como mãe de filho único, também sei que a  responsabilidade do brincar, no dia a dia, não é tarefa fácil e não pode depender apenas dos colegas da escola, dos vizinhos ou dos amigos da praia. Esta é uma responsabilidade dos pais.

Agora me responde: quantas vezes você já chegou em casa exausto, louco por um banho e uma cama e aquela carinha com olhos arregalados te olhou e disse: “Vamos brincar?” Pois é…é disso que eu estou falando. Conheço mães e pais que não brincam com seus filhos. Se rendem ao cansaço, à falta de paciência, à criatividade limitada e tolhida pelas tarefas repetidas da rotina. Eu não os condeno, porque também já tenho momentos assim e sei o quão difícil é para o cérebro de um adulto se desconectar das responsabilidades e passar alguns minutos sentados no chão, deixando a imaginação levar e brincando de fazer de conta que alguma coisa fantástica existe.

Brincar é manter o foco por horas, é ter ideias malucas, é ser livre de julgamentos, é ser dramático, é ter diversão em qualquer lugar, seja na praia ou na cidade.

Brincar é vivenciar uma situação HIPOTÉTICA, assim como Luca Toni falava do espelho para o amigo.

Mas para os adultos, as HIPÓTESES são encaradas como algo sério.  Precisam ser testadas e, para isso, são necessários métodos, regras, conceitos, tudo milimetricamente calculado, no seu lugar, com muita, muita responsabilidade. E quando se vê, ops! Tchau criatividade, adeus diversão. As ideias não fluem quando estão dentro de uma caixa fechada.

Brincar é ter a capacidade de construir robôs e helicópteros, é elaborar cenários que vão de um apocalipse zumbi até uma festa com cupcakes feitos com Lego.

Brincar é voltar a ser criança. E não se preocupe, a transformação é HIPOTÉTICA, mas deve ser vivida com intensidade que ela merece. Quando a brincadeira acabar você vai continuar sendo adulto e suas contas continuarão lá aguardando seu pagamento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s