As sutilezas da relação pai e filho

Você lembra de detalhes da sua infância? Eu não sei você, mas eu tenho poucas memórias da minha, principalmente da fase anterior aos 6 anos. Acho que isso é uma coisa natural, pois, na medida em que vamos envelhecendo e tendo novas experiências, o espaço do nosso “HD” vai sendo ocupado com outras lembranças. Além disso, não temos como registrar detalhes da nossa vida quando ainda não sabemos ler nem escrever. Então, o que nos resta é contar com a memória de fatos que nos marcaram, além de fotos e de histórias que nossos pais nos contam.

O Luca Toni, quando adulto, terá a oportunidade de ler suas próprias histórias e resgatar a origem de aprendizagens que ele teve ao longo da vida, numa espécie de cápsula do tempo. Muitas destas histórias já foram (e ainda serão) contadas sob um olhar de mãe, embora não tenham acontecido somente entre mãe e filho.

Hoje, proponho um texto com um olhar diferente, que contará uma pequena parte de uma incrível relação entre pai e filho. Um texto escrito por uma observadora atenta aos detalhes desta convivência, numa perspectiva futura, que traz sentido e valor às sutilezas que o presente não nos permite enxergar.

“Oi pai! Puxa, como o tempo passa rápido né?! Parece que foi ontem que eu nasci e hoje já estou com 6 anos! Lembro bem da primeira noite fora da barriga da mamãe. Era tudo muito estranho, eu não sabia se estava com fome ou com calor, mas o teu carinho e o teu olhar me acalmaram e conseguimos dar uma folga para ela por alguns minutos. Desde aquele momento, eu percebi que nós formaríamos uma bela dupla e que a gente aprenderia muito um com o outro.

Contigo eu aprendi a não levar os problemas da vida tão a sério. Lembra de quando eu não dormia e chorava a noite inteira? A mamãe entrava em desespero e tu, o que fazia? Cantava e dançava uma música de índio, comigo no colo. Eu achava a maior graça daquilo e me divertia muito enquanto tu me sacudia de um lado para o outro. Tua tranquilidade me acalmava, porque tu sabia que aquilo tudo ia passar (e passou né?).

Tu sempre me fez ver alegria, nas pequenas coisas da vida. Adorava ver o teu sorriso e escutar o teu cantarolar de uma musiquinha com ritmo italiano, enquanto tu se preparava para comer macarrão, revirando a massa com o garfo e a colher. Aquele som, além de grudar na minha cabeça (hehehe), também me ensinou muito sobre estar atento à felicidade que existe em momentos simples que a vida nos apresenta.

Mas se tem uma coisa que me orgulho demais de ter aprendido contigo, foi a não ter medo de arriscar por coisas que valem a pena, como ficar junto com a família, por exemplo. Lembro bem quando tu decidiu largar aquele emprego que te deixava cansado e distante de mim o dia inteiro para que tu pudesse ir comigo e com a mamãe para Barcelona, na época do doutorado dela. Pouca gente teria tido esta coragem pra fazer isso, tu estava prestes a ser promovido! Foi a primeira vez que a gente passou mais tempo juntos e até hoje eu lembro dos nossos passeios no parque e daquela escultura enorme de um mamute que tinha lá.

Eu também adorava as tuas frases e as palavras que tu usava para expressar algumas coisas. Me dava uma alegria “monstra” de ter um pai que ficava comigo todas as manhãs, que sabia do que eu gostava de comer, que arrumava a minha mochila da escola, que dobrava a minha roupa. Isso me ensinou muito sobre a igualdade entre homens e mulheres e que não existem tarefas só de meninos ou só de meninas (lembra que eu mandava tu fazer o almoço porque a mãe estava cansada?).

Me recordo também de um dia que estávamos a caminho da praia e tu me disse uma frase que até hoje não me saiu da cabeça:

-Nós vamos construir um castelo jamais visto antes!

E de fato, nós construímos um castelo enorme e minutos depois, o destruímos, para construir outro, no dia seguinte. Essa brincadeira, que era feita em meio a risadas e, às vezes, discussões, refletia a maior lição que aprendi contigo: de sonhar grande, trabalhar com dedicação e não se abalar com as perdas, porque sempre é possível recomeçar.

Eu sei que nem sempre consegui expressar todo o meu amor e carinho da forma que tu esperava. Sabia que tu morria de ciúmes quando eu falava pra mamãe: te amo! A forma como eu melhor sabia dizer isso era através dos meu poderosos golpes de karatê, boxe e MMA, toda vez que tu chegava em casa. O meu jeito de dizer “eu te amo” e que eu morria de saudades quando tu estavas longe de mim, era separando todos os meus brinquedos vermelhos, sabendo que tu detestaria, por preferir o azul, do Grêmio; era pedindo para tu fazer o desenho mais lindo do mundo, pra depois rabiscar em cima; era escondendo o controle remoto da TV bem na hora do teu jogo favorito.

Tenho certeza que eu vou continuar aprendendo muito contigo e também sei que sempre que eu precisar, tu vai me ajudar a passar as fase difíceis, seja nos meus jogos ou na vida.”

Serenidade, contentamento, coragem, igualdade, dedicação e impermanência. Sutilezas de uma relação entre pai e filho, memórias e exemplos que nos constituem como seres humanos, orientam nossas escolhas e determinam a forma como nos relacionamos com os outros. Não precisamos esperar o tempo passar para aprender com elas, podemos estar atentos às lições que a vida nos dá hoje.

1 comentário Adicione o seu

  1. Raquel Milani El Kik disse:

    Amei.

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