O X da questão

-Mãe, posso te perguntar uma coisa? Como é que a gente faz pra encomendar um irmãozinho?

Pausa dramática.

A pergunta foi feita à queima roupa, durante uma caminhada despretenciosa até a sorveteria, enquanto conversávamos sobre os sabores que escolheríamos para nos refrescar naquele calor de verão, quando assim, do nada, fui surpreendida pela questão.

Em milésimos de segundos pensei no que responder e antes que eu pudesse elaborar qualquer pensamento, ele continuou:

-Podemos encomendar pela internet? Acho que seria bem fácil. Quando a gente voltar da praia e chegar em Porto Alegre ele já vai estar esperando na nossa casa!

Agora eu tinha um duplo problema. Além de responder sobre a possibilidade de um irmão, eu teria que falar de onde vêm os bebês. Não achei que seria assim, tão rápido, aos 6 anos de idade.

-Veja bem meu filho, não dá pra encomendar um irmãozinho pela internet. Para que tu tenhas um irmão a mamãe precisa engravidar e isso leva um tempo, não é assim, de uma hora para outra.

Ele continuou:

-Mas como faz pra tu ficar grávida mãe?

A conversa estava ficando pior que vídeo game, a cada fase mais difícil. Respirei fundo e continuei:

-O papai tem que colocar uma sementinha na barriga da mamãe e então a barriga começa a crescer e depois o bebê nasce – expliquei sucintamente. Para não dar muita margem para discussão, fiz uma série de questionamentos (racionais e compreensíveis para uma criança de 6 anos) para tentar convencê-lo do contrário:

– E se for uma irmã? – não tem problema, pode ser.

– O bebê só chora, mama e faz cocô. – eu ajudo a cuidar.

– Ele vai demorar para crescer e para brincar contigo. – eu brinco com brinquedos de bebê com ele.

Ele tinha resposta para tudo. Então tentei entender o motivo do pedido:

-Mas porque tu queres um irmãozinho?

-Ah mãe, é porque eu me sinto muito sozinho no meu quarto. Eu não tenho ninguém pra brincar.

Aquela resposta cortou meu coração. Engoli seco, meus olhos ficaram marejados. Apesar de todo o esforço para dar atenção e carinho, ele sentia falta de outra criança. Mesmo na presença constante dos amigos e primos, ele sentia falta de alguém com quem compartilhar seus brinquedos, suas brincadeiras, afinal de contas, ele era praticamente a única criança do seu círculo de amizades, a não ter um irmão ou uma irmã.

Todos dizem que quando uma criança nasce, também nasce uma mãe culpada. A culpa é um sentimento que acompanha as mães, por acharem que não estão fazendo a coisa certa, em qualquer aspecto que envolva filhos. E é lógico que me senti culpada quando escutei aquele pedido, seguido de uma justificativa tão contundente. Será que eu não deveria ter engravidado antes? Será que eu ainda quero engravidar? Estaria eu sendo egoísta em não dar um irmão para ele? Como ficaria minha vida profissional? Como dizer à ele que um segundo filho não está nos meus planos (pelo menos não até aquele momento)? Pronto, as configurações para a culpa materna haviam sido atualizadas com sucesso.

A decisão por não ter mais filhos não é fácil e acho que nunca é definitiva. No meu caso, mais ainda,  pois além de já ter 40 anos, sou portadora de uma condição genética que me dá 50% de chance de ter um filho com displasia ectodérmica, que afeta 1 a cada 100.000 nascidos vivos. Nunca tive o diagnóstico genético exato, para saber qual o tipo de displasia que meus genes carregam, mas, dentre os mais de 150 tipos existentes, a Displasia Ectodérmica Ligada ao X é a hipótese mais provável. Para entender o que isso significa, uma breve explicação genética: mulheres possuem 2 cromossomos X (XX) e homens possuem um cromossomo X e um Y (XY). Quando ocorre a fecundação, o embrião é formado por um dos cromossomos X da mãe e um dos cromossomos X ou Y do pai, que definem o sexo do bebê (se o pai doar o X, nascerá uma menina, se for o Y, um menino). No meu caso, um dos meus cromossomos é afetado pela condição genética e caso este seja o “escolhido” no momento da fecundação, a criança nascerá com displasia ectodérmica ligada ao X. Neste tipo de displasia, as características clássicas, como a ausência de glândulas sudoríparas, alteração de pelos e cabelo e da dentição, são evidenciadas principalmente nos meninos. As meninas não manifestam tanto os sinais e são consideradas apenas portadoras, como é o meu caso.

Todo este blá-blá-blá teórico, fez parte do “aconselhamento genético” que eu e meu marido recebemos quando confirmamos a displasia do Luca Toni através das características físicas e da história familiar, por um médico geneticista.

Pensar em uma nova gestação é, sem dúvida, levar em consideração o “risco” de ter outro filho afetado geneticamente, mas acima de tudo é relembrar da montanha russa de emoções que tive logo após o nascimento do Luca Toni. Da surpresa no momento do nascimento, passando pela negação, medo e finalmente chegando a aceitação e superação. Não foi uma jornada fácil, mas hoje não me imagino sendo mãe de outra criança que não o Luca Toni, do jeitinho que ele é, com todas as suas peculiaridades que me ensinaram a ser a mãe que sou hoje.

Volta e meia volta o pedido do irmão aparece em nossas conversas. Pode ser apenas uma fase, daquelas que passam sem a gente nem perceber. Mas não posso negar que este pedido ecoa no meu pensamento, apertando o meu peito e, em silêncio, tento elaborar respostas racionais para justificar uma decisão.

Uma decisão que vai muito além do X.

 

2 comentários Adicione o seu

  1. marioncreutzberg disse:

    Sei bem como é… tb tomei essa decisão, por outros motivos. Mas ler Primeiro e Único, da jornalista norte-americana Lauren Sandler, foi muito bom – acabou a “culpa”!

    Curtido por 1 pessoa

    1. becoolboy disse:

      Já li algumas coisas desta autora Marion! Boa dica, vou ler o livro!

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