Planos ou Expectativas?

Após um longo dia de trabalho, chego em casa pouco depois das 21h. Sou recepcionada por um menino de 6 anos, saltitante e sorridente, que me abraça e me beija antes mesmo de eu largar minhas coisas no sofá. Seu olhar me dizia que ele estava cheio de coisas para me contar. Contenho a euforia dele momentaneamente, para atender em primeiro lugar meu estômago, que estava sendo torturado desde a minha chegada com o aroma de um jantarzinho delícia, feito carinhosamente pelo meu marido.

Recuperada a homeostase energética, saio da mesa e me atiro no sofá, na esperança de ter alguns minutinhos de descanso para a minha digestão, mas em segundos sou esmagada pelo menino saltitante, que me faz pensar que eu deveria ter comido menos. Abraço-o com força e penso que apesar do meu cansaço, este é o melhor momento do dia. Pergunto sobre a escola. De imediato, sua empolgação diminui.

– Tudo bem, mas o recreio não foi muito legal. – diz ele.

– Por que? – eu pergunto, já sabendo que as tardes quentes têm sido um problema para ele e que independentemente do calor ou da incidência solar, a maioria dos colegas adoram correr no pátio.

-Tem uns meninos grandes que estão me incomodando.

Meu coração congela. Será que meu maior medo estava se tornando realidade? Será que, por suas diferenças, meu filho estava sendo vítima de bullying? Continuei a conversa, tentando ser o mais natural possível, para saber de mais detalhes.

-Ah, mãe! Eles me incomodam, não deixam eu brincar direito com meu amigo, ficam nos empurrando e jogando água na gente.

Respiro fundo e pergunto:

– Mas vocês já contaram para a professora? Já mostraram os meninos para o monitor do pátio? Tem que avisar um adulto quando isso acontece.

-Sim, a gente já falou, mas não adianta, eles continuam.

Mas em seguida, ele mudou o tom de voz e olhando de uma forma muito determinada para mim, disse:

-Mas mãe, não te preocupa, eu tenho um PLANO! Amanhã, quando estes meninos vierem me incomodar, eu vou colocar as mãos nos bolsos e passar por eles fazendo de conta que eu nem os conheço. Aí eles vão pensar – “ué, quem é este guri?” – e nem vão dar bola pra mim.

A pureza e a ingenuidade dele fizeram meu coração sorrir e embora eu já começasse a organizar a agenda mentalmente para marcar um horário com a professora, concordei:

-Poder ser um bom plan…

E antes que eu pudesse completar a frase, ele deu um salto e gritou:

-Este PLANO é infalível, vai dar MUITO CERTO! – enquanto encenava várias vezes o que aconteceria.

Não satisfeito com a encenação, ele correu até o armário, pegou uma folha em branco e lápis, sentou-se em sua mesinha e começou a desenhar. Perguntei o que ele estava desenhando.

-Espera mãe, eu já te mostro! – em seguida enfia a folha de papel na frente aos meus olhos. Afasto a folha e vejo que ele havia desenhado detalhadamente todas as etapas do seu plano infalível. Onde ele estaria no pátio, como ele colocaria as mãos nos bolsos, como ele ficaria com o nariz empinado e o momento final, quando os meninos desistiriam da ideia de o incomodar.

-Uau! – eu disse. Me parece um bom plano mesmo, está tudo muito organizado!

– É, está! – ele disse orgulhoso, de peito estufado, cheio de confiança e admirando a folha de papel nas mãos.

Mas, em 1 segundo, tudo mudou. Sua expressão confiante foi substituída por um olhar de dúvida e incapacidade.

-E SE o PLANO não der certo? – ele perguntou, desanimado.

-Se o PLANO não der certo, tu planeja outro. Ou tenta este mais de uma vez. Nem sempre as coisas que a gente planeja dão certo na primeira vez. A gente erra muito até acertar. – respondi, aliviada por poder trazer um pouco de realidade para a situação.

– Está bem – disse ele, sem se abalar muito. Dobrou o papel com o desenho do PLANO e guardou-o na mochila – vou precisar amanhã – disse, ainda muito excitado com o que aconteceria no dia seguinte.

A esta altura, já passava das 23h e, apesar da agitação, era hora de ir para a cama, pois afinal de contas, todo aquele planejamento havia me deixado exausta. Em meio a pulos de euforia, pego ele pelas mãos, puxando-o para um abraço e digo:

-Agora, EU tenho um PLANO! Vamos dormir?

Ele, calmamente me olha e fala:

-Mãe, isto não é um PLANO. Isso é uma EXPECTATIVA!

Não contenho a gargalhada e pergunto se ele sabe o significado daquela palavra.

-Claro que sei! É uma coisa que tu acha que vai acontecer.

Ora, que pretenção a minha em querer colocar na cama um menino em pleno processo criativo! Sem um planejamento detalhado, como eu executaria cada etapa que antecede o ato de dormir? Que tipo de empatia e interpretação eu havia tido para idear tal ação? Eu não tinha nem um protótipo para demonstrar e muito menos um relato de experimentação daquele processo.

Bom, mesmo sendo somente uma expectativa, coloquei-o na cama para dormir, afinal de contas, ele tinha um PLANO INFALÍVEL para colocar em prática no dia seguinte.

No outro dia, fui buscá-lo na escola e a primeira coisa que perguntei foi se o PLANO tinha dado certo. Não, o PLANO não deu certo como ele havia imaginado.

O PLANO falhou em manter os meninos que incomodavam longe dele, mas foi certeiro em ensiná-lo que a vida é feita de ERROS e ACERTOS, que as coisas nem sempre são fáceis, que a mudança vai muito além da EXPECTATIVA, exigindo PLANEJAMENTO e EXECUÇÃO e que tudo isso fica muito mais fácil quando se tem APOIO, seja dos pais, dos professores e dos amigos.

Ele continuou tentando e eu o apoiei onde foi preciso, inclusive conversando com a professora sobre a situação. Ainda não sei o que funcionou, mas o fato é que os meninos pararam com a incomodação.

E quanto a mim, dormir cedo vai continuar sendo apenas uma EXPECTATIVA.

 

 

 

 

 

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