Criatividade

A utilidade do inútil

Era um final de tarde frio e chuvoso e dezenas de pais e mães aguardavam a saída dos seus filhos, aglomerando-se no saguão da escola, à espera do sinal. Contrariando meu habitual atraso, naquele dia eu havia chegado cedo e, enquanto meu filho ainda estava em sala de aula, eu contemplava releituras da obra Abaporu, de Tarsila do Amaral, feita por alunos e expostas nos corredores da escola, quando, sem querer, escuto uma conversa entre duas mães que estavam atrás de mim.

-Eu não entendo o que está acontecendo com a escola! – disse uma delas, em tom irritado.

-Nas quartas-feiras, meu filho não tem “aula”! É só aula de Artes e de LEGO! Isso é um absurdo! Eu vou reclamar para a coordenação, porque a partir do próximo ano, ele será cobrado pelos conteúdos e aí eu quero ver!

A outra mãe, concordando com o aparente “absurdo”, complementa”:

-Sim, eu já estou vendo outra escola para o meu filho. O filho de uma amiga estuda num colégio super forte em conteúdos e ela está adorando!

Ao escutar tal diálogo, dou uma espiada para trás, para conferir se eu estaria tendo uma alucinação mental, influenciada pelas criaturas de cabeça pequena, com falta de pensamento crítico, retratadas nas obras que eu observava. Minha sanidade mental estava a salvo, pois, por incrível que pareça, a conversa acontecia entre duas pessoas reais.

O sinal bate. As crianças invadem os corredores, agitando o ambiente em busca de seus pais. Meu filho corre em minha direção, sorrindo, com a mochila na costas e um desenho na mão. Vamos a pé para casa e no caminho, em meio a brincadeiras e conversas, fico pensando sobre o ocorrido.


Vivemos num tempo de utilitarismo. As coisas importantes devem ter finalidade prática, devem produzir lucro e isso acaba se refletindo também na educação. Na maioria das vezes, as crianças são instruídas e abastecidas com uma série de saberes previamente determinados, para que em algum dia, possam ver a utilidade dos mesmos. Esta lógica utilitarista do conhecimento, segundo Nuccio Ordini, autor do livro A Utilidade do Inútil-um Manifesto(que tomo emprestado para intitular este texto) é duramente criticada e, segundo o autor, “pode ser a responsável por murchar o espírito das pessoas, pondo em perigo não só a cultura, a criatividade e as instituições de ensino, mas valores fundamentais como a dignidade humana, o amor e a verdade“.

Assim como Ordini propõem em sua obra, a professora de Humanidades e Estudos Midiáticos na Universidade de Artes da Filadélfia, Camille Paglia, nos ajuda a pensar sobre o valor da arte, da poesia, da curiosidade e dos saberes sem aplicações práticas ou usos comerciais. Em um texto em que fala sobre o impacto do ensino da arte (ou da falta dele) na percepção do mundo, Camille chama atenção para a hiper estimulação que sofremos diariamente, com um bombardeio de informações que chegam até nós na forma de textos, imagens e que tornam a leitura de mundo cada vez mais confusa e cita:

“Como sobreviver nesta era da vertigem? Precisamos reaprender a ver. Em meio à tamanha e neurótica poluição visual, é essencial encontrar o foco, a base da estabilidade, da identidade e da direção na vida. As crianças, sobretudo, merecem ser salvas deste turbilhão de imagens tremeluzentes que as vicia em distrações sedutoras e fazem a realidade social, com seus deveres e preocupações éticas, parecer estúpida e fútil. A única maneira de ensinar o foco é oferecer aos olhos oportunidades de percepção estável — e o melhor caminho para isso é a contemplação da arte.”


Chego em casa e meu filho me convida para ir para o seu lugar favorito: nossa sala de atividades, espaço livre de telas e cheio de coisas para criar. Ele quer brincar de “aula” e propõem que eu seja a professora. O conteúdo? Artes. Lembro do diálogo que escutei por acidente e fico feliz com a escolha dele.

Iniciamos a encenação da aula e, tentando fazê-la da forma mais participativa possível, disparo uma série de perguntas para o único estudante da classe de faz de conta:

-O que é arte?

-São pinturas, esculturas, música. — Ele responde.

-Para que serve a arte?

-Para expressar como as coisas são. Expressar sentimentos. — Fico impressionada com a resposta.

Resolvo então, mostrar algumas formas de arte e lembro que, numa visita à Pinacoteca de São Paulo, havia ganhado alguns pôsteres de obras lá expostas. Procuro no armário e encontro o envelope duro com três obras de Tarsila do Amaral, a mesma artista das releituras fixadas nas paredes que eu observava horas antes na escola. Aleatoriamente, puxo uma das gravuras do envelope, mostro para meu aluno atento e digo:

-Olhe esta obra de arte. Ela foi pintada por uma artista brasileira muito famosa. Ela deu um nome para este quadro. Que nome tu darias para esta figura?

Ele olha atento para a imagem. Pensativo, coloca a mão no queixo e diz:

-Parece que estas pessoas estão num Carnaval.

Olho para a imagem e percebo que os personagens participam de alguma festa, mas não diria que é um Carnaval. Além disso, há uma espécie de Torre Eiffel na cena e não tenho a mesma percepção que ele. Porém, quando viro o pôster para ler a descrição da obra, me deparo com o título:

Carnaval em Madureira, 1924, óleo sobre tela.

Pode ter sido uma mera coincidência, mas confesso que fiquei chocada/impressionada/feliz com a percepção dele. Terminamos aquela brincadeira com a criação de um desenho próprio.


Ao organizar as ideias para escrever este texto, li o restante das orientações sobre a leitura de imagem da obra de Tarsila no verso do pôster e nela, constava uma frase de Leonardo Boff, que resume bem a intenção deste texto:

“Ler significa atribuir sentidos. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são os seus olhos e qual é sua visão de mundo”.

Que possamos dar aos nossos filhos uma ampla visão de mundo, através das artes, da música, do movimento e, mesmo com olhos limitados, encontremos utilidade naquilo que, aparentemente, é inútil.

Luca Toni em muitos dos seus momentos de expressão e leitura de mundo através da arte.

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