Criatividade, Maternidade

Corda bamba

Oi, tudo bem? Faz tempo né? Pois é, hoje faz exatamente 6 meses e 11 dias que eu não escrevia um texto para o Be Cool Boy. Desde o último texto pulbicado, logo após a nossa chegada no Canadá, minha inspiração, criatividade e fluidez de ideias simplesmente desapareceu. Os efeitos do gélido inverno Canadense teria finalmente afetado o meu cérebro, que simplesmente congelou e não foi capaz de produzir nada mais profundo do que fotos, acomapanhadas com um pouco mais de 140 caracteres, hashtags e emojis.  Semana após semana, Mark Zuckerberg  fazia o favor de me enviar uma simpática notificação – “1.067 pessoas que curtiram o Be Cool Boy não têm ouvido mais falar de você faz um tempo. Escreva um post”.  Isso sem contar nas notificações de recordações de textos já publicados: “Você tem lembranças para recordar no dia de hoje”. E, só por curiosidade, eu clicava no link, e lá vinha um texto lindo, inspirador, que nem parecia que tinha sido eu que havia escrito. Parar de escrever significava ter deixado de lado um compromisso com as pessoas que me acompanhavam (eu tinha até uma fã, lembram desta história?), mas acima de tudo também era um sintoma de que algo tinha mudado em mim.

Ah, e quanta mudança! Ok, foi uma mudança planejada, mas independente de ser intencional ou não (o que não significa ter a situação sob controle), há um semestre eu perdi a maioria das minhas “certezas” (que na verdade, nunca existiram). Toda a solidez e permanência de uma vida estável foi substituída pela fluidez e impermanência de uma vida desconhecida. Um novo idioma, uma nova casa, um novo clima. Novos colegas e uma nova área de trabalho. Nova escola, novos programas de televisão, novo meio de transporte. Nova cultura, nova comida, novos hábitos. Tudo o que eu fazia na minha velha e conhecida rotina simplesmente desapareceu do dia pra noite e eu precisava aprender a fazer tudo de novo, de um jeito novo. Aquele terreno conhecido, que me permitia ser uma malabarista de pratos chineses, equilibrando com perfeição dezenas de tarefas ao mesmo tempo, se transformou numa corda bamba, sem rede de proteção. Equilibrar tarefas e emoções, com a tensão do desconhecido, deixou minha mente turva e bloqueou qualquer resquício de criatividade. Era como se eu não pudesse mais traduzir em palavras minhas experiências e aprendizados sobre maternidade, diversidade e criatividade, que eu me propus a compartilhar aqui.

Foi então que, dias atrás, me dei conta de que eu já havia vivido situação semelhante há cerca de 7 anos. A sensação de ficar na corda bamba, também aconteceu logo após o nascimento do Luca Toni. Minhas “certezas” (ou seriam os pratos chineses?) sobre maternidade foram caindo uma a uma quando me deparei com o desconhecido. Lembro que durante os primeiros meses após o nascimento, minha mente parecia um computador se auto-reconfigurando. Lembrava de sonhos que havia tido quando criança, reordenava prioridades, descartava saberes teóricos e aprendia tantos outros na prática. Sem contar nas emoções, sentimentos e sensações que ficavam sendo processadas lentamente e pouco a pouco iam se acomodando na minha mente e no meu coração.

Precisei de 5 anos e 10 meses, observando o que se passava ao meu redor e principalmente na minha mente, para conseguir escrever meu primeiro texto. Esta “descoberta” foi libertadora e a partir dela pude compreender minha “paralisia textual” dos últimos meses. Isso me fez pensar que, quando perdemos o que nos mantém no prumo, leva um tempo pra gente conseguir levantar, sacudir a poeira, curar as feridas e finalmente, erguer a cabeça, olhar para frente e dar o primeiro passo (escrevendo ou simplesmente vivendo).

Este texto representa este primero passo, dentre tantos outros primeiros passos que já dei durante a corda bamba da minha vida. Neste momento, cada um está equilibrando pratos, caminhando ou simplemente tentando manter o equilíbrio na corda bamba da sua prórpia vida. Para alguns, cada passo dado é uma oportunidade de seguir em frente. Para outros, é a possiblidade de cair no vazio do desconhecido. Eu prefiro acreditar na primeira opção, pois a beleza do espetáculo não está em se manter no mesmo lugar, ou na velocidade em que se atravessa a corda, mas sim no quão emocionante e desafiadora é a travessia.

Estou feliz por estar de volta! 🙂

9 comentários em “Corda bamba”

  1. Raquel,
    É sempre muito bom ler teus textos, eles nos mostram que todos somos capazes de nos adaptar às mais diversas situações, mesmo que para isso tenhamos que “hibernar “ durante algum tempo, seja uma hibernação literal ou até de “faz de conta”. O importante é que, quando despertamos, estamos “famintos” pelo que está por vir e descobrimos que o tempo “hibernado” serviu para masserar nossas dúvidas, nossas angústias, nossas incertezas e voltarmos com todo o vigar para o que nos espera, ou seja, a vida como ela é. Seja bem-vinda!

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    1. Sônia, querida, obrigada pelas palavras, elas aqueceram meu coração! Às vezes é preciso hibernar para encontrarmos significados no nosso despertar. Um beijo grande e obrigada por nos acompanhar!

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  2. “ pois a beleza do espetáculo não está em se manter no mesmo lugar ou na velocidade em que se atravessa a corda, mas sim no quão emocionante e desafiadora foi a travessia”. AMEI Raquel! Que texto lindo e verdadeiro, exatamente o que eu precisava ler nesse momento. Fez bem a ti e a mim. 😘

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    1. Claudia, me emocionei com teu depoimento. Quando escrevo, penso muito em quem vai ler o texto e tento ser o mais sensível possível, pois sei que cada um atravessa sua jornada pessoal e que as palavras podem ferir ou ajudar. Teu depoimento me encoraja a continuar compartilhando meus sentimentos, expressos através dos textos. Fico muito feliz que este tenha sido exatamente o que estavas precisando. Um grande beijo! 🙂 _/\_

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  3. Raquel, querida, é sempre uma emoção ler seus textos, compartilhar de suas experiências, acompanhar o Lucca Toni! Você é um exemplo de coragem e amor! ❤️

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  4. Minha querida amiga! Lindo texto!
    O mais importante já estas realizando: estas vivenciando verdadeiramente a travessia, percebendo cada passo e o seus efeitos !
    Vivendo e sentindo!
    Beijo grande e saudades!

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    1. Vera querida! O desafio de observar os próprios passos e aprender com eles é diário! Que nunca percamos a capacidade de nos auto-conhecer. Um beijo grande, com carinho e muita saudades!

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