Criatividade

A linguagem do amor

Foi na manhã de uma quinta-feira cinza e fria que nosso encontro aconteceu, num pequeno café da cidade de Halifax. Com o passo apressado por causa da chuva fina que caía e do meu pequeno atraso de 2 minutos, adentro o estabelecimento ofegante. O aroma inebriante de café torrado, misturado ao barulho de colherinhas batendo em xícaras e ao som de discretas conversas, deixavam o ambiente tão acolhedor que, instantâneamente, desacelero, e me conecto ao presente. De longe, vejo que quem eu encontraria, já me aguardava. Ela estava na fila, pedindo o seu café “Americano”. Caminho em sua direção, enquanto vou tirando a touca e o casaco, guiada por um sorriso que iluminava aquele dia cinzento.

Quem sorria para mim era Terri Kilbride, é escritora, e assim como eu, também é mãe. Sua filha, Sophia, é portadora da mesma condição genética rara que afeta o meu filho, a Displasia Ectodérmica. Nosso primeiro encontro foi há cerca de 8 meses, num daqueles momentos mágicos em que o Universo conspira para que as coisas aconteçam (eu conto como foi este encontro neste post aqui). Esta já era a quarta vez que nos encontrávamos e, apesar de já nos conhecermos, estávamos visivelmente ansiosas. Depois de abraçá-la, peço meu espresso e um suco de manga (para recordar um pouco dos sabores do Brasil) e nos acomodamos numa mesinha.

Por alguns segundos, fico sem saber o que dizer. Nem sempre é facil expressar o que pensamos e o que sentimos, ainda mais quando isto precisa ser feito em outro idioma. Estou emocionada ao reencontrá-la e me atrapalho com as primeiras frases. Peço desculpas pela minha dificuldade de comunicação e sigo conversando, perguntando pela família e contando um pouco sobre o que ando fazendo. Compartilho com ela um pouco da minha saudade, da falta que faz termos a família e os amigos por perto e de como é difícil estabelecer vínculos quando temos que nos expressar num idioma que não dominamos completamente. O Inglês acadêmico é muito diferente do inglês do dia a dia, pois os conhecimentos técnicos precisam ser substituidos por desejos, medos, anseios e expectativas. Durante a conversa, nossos olhos alternam expressões de riso (quando exibíamos com orgulho nossas rugas de felicidade) e emoção (quando quase não conseguíamos enxergar uma a outra pelo olhar marejado de lágrimas). Na medida que a conversa evolui, sinto que outra forma de comunicação se estabelece, através de ideias, pensamentos, expressões e até mesmo pelo do silêncio que eventualmente pausava o nosso diálogo.

Enquanto converso com ela, me dou conta de que a linguagem que começava a se estabelecer entre nós, era uma linguagem de amor e empatia, com uma se colocando no lugar da outra, sem críticas ou  julgamento de qualquer tipo, ambas expressando-se e compreendendo realidades distintas e também semelhantes. Em meio a risos, nos damos conta da beleza daquele momento. Um momento que foi programado justamente por conta das diferenças entre os nossos idiomas e que fariam parte do projeto que iniciaríamos juntas. Estávamos ali para conversar sobre o Be Cool Boy, que passará a ter seus textos publicados em Inglês. A partir daquele encontro, as histórias compartilhadas no blog vão inspirar pessoas pelo mundo afora, e a experiência de Terri como escritora e como mãe, será essencial para a qualidade dos textos publicados.

Estabelecemos algumas metas, definimos nossos encontros e os primeiros textos a serem traduzidos (o primeiro será um dos textos que eu mais gosto, “O importante é ter Saúde“, que teve um alcance de 4K, já nos primeiros meses de blog). Nosso encontro termina, me despeço dela com um abraço e já na rua, apresso o passo novamente para alcançar o ônibus. No caminho, as lágrimas escorrem pelo meu rosto. E pensando no que acabara de acontecer, me encho de orgulho e de gratidão, não só por poder compartilhar histórias inspiradoras num blog bilíngue, mas por me dar conta de que, independente do idioma, os textos do Be Cool Boy continuarão a ser escritos com a mais universal de todas as linguagens: a linguagem do amor.


Terri e eu durante nosso encontro no charmoso Café Local Jo, em Halifax.

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4 comentários em “A linguagem do amor”

  1. Ohhh Raquel….querida fiquei emocionada lendo teu relato. Muito lindo. Com certeza a melhor linguagem é a do amor verdadeiro e a doação de Vocês por estes lindos filhos. Tudo maravilhoso.
    Abração e segue em frente. Sucesso nesta caminhada 😍😘😘

    Curtido por 1 pessoa

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