Diversidade

O que te faz único?

Domingo, 9 da noite. Ainda tomada pela usual preguiça que domina este dia da semana, começo a me mexer, com uma certa resistência, para organizar a semana que vem pela frente. Dou uma olhada da agenda do celular, confiro as minhas metas e entregas. Tudo sob controle. Vou até a geladeira, onde o cronograma mensal das atividades e os recados escolares ficam pendurados por ímans. Meus olhos ignoram os recados do tipo “traga 7 garrafas pet de 2,5 litros até amanhã” e diretamente buscam a atividade denominada de “Show and Share”. Esta é uma atividade semanal, em que os alunos devem “apresentar e compartilhar” algo sobre um determinado assunto, estimulando as habilidades de storytelling e de expressão oral. Os assuntos são variados e geralmente têm a ver com as atividades que estão sendo realizadas em aula e eventualmente o tema é de escolha do aluno. Rapidamente, localizo a data da semana que estava por vir e leio o tema e a descrição: “esta semana os alunos deverão compartilhar com a turma o que faz deles únicos. Eles poderão falar sobre uma característica física, talento, hobby ou algo que só eles consigam fazer. Desenhos e fotos poderão ser utilizados na apresentação.”

Abro a geladeira, e fico ali, parada dentro dela, com o olhar fixo e com o pensamento na pergunta “o que te faz único“? O que Luca Toni escolheria compartilhar com os colegas, tendo em vista, no meu entendimento, a obviedade da sua condição ímpar. Será que ele escolheria falar sobre as suas diferenças, decorrentes da Displasia Ectodérmica, que fazem dele uma criança (pelo menos no ambiente em que ele vive) única? O frio da geladeira me acorda do transe momentâneo e me faz lembrar que eu estava ali para pegar o leite. Preparo a batida de banana que Luca Toni costuma tomar antes de dormir. Em seguida, coloco ele na cama e leio um livro. Aproveito para comentar com ele as atividades da semana e, dentre elas, falo, despretensiosamente, sobre o tema do “Show and Share”. Ele não dá muita importância, vira para o lado e dorme.

Segunda-feira, 8 da noite, é chegada a hora de preparar a apresentação. Sento ao lado dele, ajudo a fazer outras atividades que deveriam ser entregues no dia seguinte, mesmo dia da apresentação dele.

-Bom, agora vamos preparar o teu “Show and Share” – digo com a naturalidade de uma gelatina em pó sabor morango.

Leio o enunciado todo e pergunto:

-Então Luca Toni, o que te faz único?

Ele põe a mão no queixo, franze a testa e pensa por alguns segundos.

-Não sei! – ele responde.

– Não sabe? – falo, com uma certa surpresa.

Com a negativa dele, leio novamente o enunciado e destaco:

– Pense em alguma “característica física” que só tu tens.

Novamente, ele pensa, se olha.

-Eu não sei mãe. Mas tem uma coisa que eu acho que só eu sei fazer – ele responde.

Num salto, ele se levanta, fica na minha frente e fala, enquanto demonstra:

– Eu consigo colocar a língua na ponta do nariz!

Começo a rir e ele gargalha, enquanto faz repetidas vezes a proeza, dizendo que vai desafiar os colegas a fazerem isso.

-Aposto que ninguém vai conseguir! – comento.

Para me certificar de que esta “cegueira” não seria um mecanismo de fuga ou negação da sua própria condição, que lhe confere características como o cabelinho ralo, a falta de sombrancelhas e a ausência de vários dentes (ele tem só dois), resolvo comentar uma das características, como quem não quer nada:

-Ah, tem uma outra coisa que tu poderia falar também! Uma coisa que é só tua: tu não sua, não transpira, lembra?

Com um sorriso no rosto ele rapidamente responde:

– Ah! É mesmo! Eu tinha esquecido! Ok, eu posso falar isso também, mas acho que isso todos os meus colegas já sabem disso!

Abraço ele e digo o “Show and Share” será um sucesso.

Terça-feira, 5:30 da tarde, no caminho para casa, encontro a professora, que brevemente comenta sobre o excelente trabalho que Luca Toni havia apresentado naquela tarde. Chego em casa curiosa para saber como havia sido a apresentação mas já sabendo que o nível de detalhes seria baixo. Surpreendentemente o usual “tudo bem” foi substituído por um “muito bom”, seguido de “ninguém venceu o meu desafio”. E quanto ao não suar, pergunto.

– Ah, todo mundo queria ser como eu! E agora eles entenderam porque eu sou tão calorento e fico de pés descalços na sala de aula.

Sorrindo por dentro e envolvendo-o em um abraço, penso que a minha preocupação estava atrelada aos padrões estéticos que insistem em normatizar as pessoas e que, apesar de todo o meu esforço para não passar esta mensagem ele, este padrão de pensamento/julgamento, ainda estava dentro de mim. Apesar das diferenças, Luca Toni não se vê diferente, porque, apesar de saber de sua condição, isso não é maior do que a pessoa que ele é. Uma pessoa que pode fazer o que quiser, inclusive coisas incríveis como encostar a ponta na língua no próprio nariz.

 

 

4 comentários em “O que te faz único?”

  1. Que lindo! Quase chorei. “Luca Toni não se vê diferente, porque, apesar de saber de sua condição, isso não é maior do que a pessoa que ele é.” Uma lição incrível 🙂

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  2. Touching the tip of his nose with his tongue was a topic of conversation after school in our home! He certainly has a unique talent !!

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